Para quem possui um barco em vaga molhada, ou que às vezes precisa deixá-lo na água por períodos mais prolongados, o maior desafio é, sem dúvida, a bioincrustação marinha, o que conhecemos mais popularmente como formação de craca. Esse processo na verdade é bem mais do que uma simples formação de cracas e abriga muitas outras espécies vivas. Vamos tentar entender melhor o que é e como lidar com a bioincrustação.
A luta para ficar livre da incrustação é bastante antiga e ao longo dos anos surgiram muitos estudos e produtos diferentes para evitar que isso aconteça. Mas você sabe exatamente o que é esse processo? Usando como referência o material elaborado por Bernardo Antonio Perez da Gama, Renato Crespo Pereira & Ricardo Coutinho, do Departamento e Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha da Universidade Federal Fluminense, a partir do manuscrito original que deu origem ao Capítulo 12 do livro “Biologia Marinha”, editado por R.C. Pereira & A. Soares-Gomes, 2a edição, publicado em 2009 pela Editora Interciência, vamos resumir aqui como funciona esse processo de formação de incrustação.
Mas o que é de fato a bioincrustação marinha?
Conhecida internacionalmente como biofouling, a bioincrustação é resultante da colonização ou do crescimento de bactérias, algas e/ou invertebrados sésseis. Isso ocorre em superfícies submersas, sejam elas naturais ou feitas pelo homem.
O desenvolvimento das incrustações envolve várias etapas. Primeiramente acontece uma absorção de biopolímeros presentes na água à superfície. Em nosso caso vamos considerar o fundo das embarcações. Em um segundo momento acontece a atração química de bactérias e inicialmente essa absorção é reversível, passando rapidamente a um estado irreversível que envolve a fixação por fibrilas macromoleculares. A partir daí começam a surgir aglomeração e a formação de colônias e o crescimento de uma população bacteriana secundária, assim como diatomáceas bentônicas e protozoários. Tudo isso ainda é tido como uma microincrustação e somente após esse processo começa a surgir uma comunidade de organismos macroscópicos. A macroincrustação desenvolve-se sobre a microincrustação e é aí que conseguimos ver o surgimento de cracas, briozoários, ascídias, esponjas e macroalgas.
É interessante perceber que as incrustações começam a surgir bem antes do que nós imaginamos, pois como estas iniciam pela microincrustação, não conseguimos observar a olho nu a fixação das primeiras bactérias, que começam a povoar as superfícies já no primeiro dia de submersão. Já as primeiras larvas começam a surgir pouco antes de uma semana de submersão. Todo esse processo varia ainda de acordo com a época do ano e a localidade, a composição química da água, bem como sua temperatura, influenciam diretamente nos organismos vivos e seu comportamento, mas é fácil constatar que a incrustação pode se proliferar de forma muito rápida.
A bioincrustação, apesar de um processo natural, é um grande problema, especialmente para as embarcações em geral. Estima-se que pelo menos 450 milhões de dólares sejam gastos ao ano como prevenção da bioincrustação. Esse investimento no entanto, evita prejuízos estimados em 7 bilhões de dólares ao ano. Sendo assim é correto afirmar que para cada dólar investido na prevenção, deixamos de gastar 15 dólares da reparação e isso mostra o quão destrutivo pode ser o acúmulo da incrustação e acima disso o grau de importância em manter seu barco sempre protegido.
Para a navegação a incrustação é um verdadeiro tormento. Esta torna a superfície dos cascos das embarcações rugosa e irregular, aumenta o arrasto e dificulta a realização de manobras, além de reduzir a velocidade. O simples aumento de 10 microns, ou seja, um milésimo de 1 centímetro, é suficiente para resultar num incremento de 0,3 a 1,0% do consumo de combustível. Estima-se que em águas temperadas a incrustação provoque um aumento de 35 a 50% no consumo de combustível dos navios. Mas nas águas tropicais onde, aqui no Brasil, a grande maioria das embarcações de recreio navegam, a incrustação se desenvolve mais rapidamente e em 6 meses pode atingir uma espessura superior a 15 cm. A bioincrustação causa ainda um aumento de peso na embarcação, causando uma sobrecarga, causa ainda entupimento nos sistemas de resfriamento e reduz a propulsão do hélice.
Apesar dos grandes avanços tecnológicos ainda há muito que melhorar quanto ao desempenho das tintas anti-incrustantes, mais conhecidas como tintas venenosas. As primeiras tentavas de se combater a bioincrustação foi relatada em 462 a.C., com o uso de uma mistura de arsênico e enxofre. Ao longo dos séculos as embarcações foram protegidas com misturas de sebo, enxofre, breu, creosoto ou através de placas de cobre ou chumbo pregadas ao casco abaixo da linha d’água. Em épocas mais modernas, através da química surgiu o uso de substâncias biocidas, que intoxicam os organismos vivos que causam a incrustação e nesse contexto o cobre se destacou e, ainda hoje, ocupa uma posição de destaque como um dos agentes mais eficientes. Em 1925 surgiu uma nova substância baseada na mistura de materiais orgânicos com átomos de estanho, o tributil estanho ou TBT, com eficácia 5 vezes maior do que as tintas baseadas em óxido de cobre, com vantagem adicional de não causar corrosão nos cascos de alumínio e aço, como ocorre com o cobre. O uso do TBT, no entanto, começou a ser questionado por seu impacto ambiental. Em 1990 o Comitê de Proteção ao Ambiente Marinho da Organização Marítima Internacional recomendou o controle do uso do TBT e a eliminação do uso desse componente. Outras tintas de baixa adesão, baseadas em teflon que não utilizam biocidas e atuam por antiaderência também surgiram como alternativas e estão sendo testadas.
O fato é que hoje no mercado não existem muitas opções a que se recorrer. Como foi dito, o tipo e nível de incrustação se alteram conforme o local onde a embarcação navega e fica atracada e por isso é muito difícil que uma mesma tinta se comporte bem em todas as situações e é por isso que não há como fazer uma indicação dessa ou daquela marca ou linha de tintas como sendo a melhor ou a ideal. Há de se observar por tentativa e erro o que dá certo em cada caso. Mas isso não quer dizer que você terá de realizar testes em seu barco. Ao longo dos anos os estaleiros que atuam com pinturas anti-incrustantes, como é o caso da Angra Boats em Angra dos Reis-RJ, já observaram as tintas utilizadas no mercado por outros clientes. Como existe a necessidade de repintura periódica, que dependendo da tinta utilizada e também das condições das águas, pode variar mais comumente entre 6 meses e um ano, é possível verificar os resultados obtidos por cada cliente e isso nos trás informações sobre quais os produtos tem um resultado melhor em cada caso.
Como visto, é fundamental que os ciclos de repintura dos fundos da embarcações sejam respeitados, para que os produtos aplicados hajam com mais eficiência. O investimento na proteção de seu barco da bioincrustação é pequeno frente aos benefícios, como a economia de combustível, o aumento de desempenho e especialmente por proteger o casco da embarcação da ação nociva e muitas vezes destrutiva desses pequenos organismos. É importante ainda que a aplicação desses produtos anti-incrustantes sejam feitas da forma correta. Isso é um trabalho para profissionais qualificados e empresas especializadas, portanto, não se aventure usando profissionais e produtos questionáveis, o velho ditado que o barato sai caro se enquadra muito bem nesse caso e seu barco merece um tratamento adequado, afinal é seu patrimônio que precisa ser preservado.






